Existe um proverbio bem conhecido que diz: “E preciso uma vila para criar um filho”. Como maes e pesquisadoras realmente concordamos com esta afirmacao, entretanto nos tambem acreditamos que seja necessaria uma vila para criar uma mae. Essa vila materna pode ter diversos contornos e formas, sendo fonte de apoio com a qual uma mae pesquisadora pode contar e sendo espaco de aprendizado e interacao entre maes e comunidade. Quando falamos do papel ocupacional de pais, nao podemos negar as mudancas ocorridas na sociedade na ultima decada. Essas mudancas levaram a uma divisao mais equitativa no trabalho e em casa, incluindo a participacao de outras pessoas, como os parceiros, nos cuidados com as criancas. No entanto, o mais comum, continua sendo uma divisao desigual de cuidados; uma desigualdade nao apenas observada em casa, mas tambem reproduzida pelas pessoas no ambiente de trabalho (WARD, 2014). Nos entendemos nossa posicao privilegiada como academicas, mas os desafios enfrentados e as estrategias usadas para equilibrar com sucesso a vida de pesquisadora em uma carreira docente e de mae precisam ser destacados e discutidos em nossa comunidade (HALLSTEIN; O’REILLY, 2012). Portanto, nossa intencao neste editorial e iniciar uma conversa e advogar por um local de trabalho inclusivo, onde as mulheres possam ter sucesso em seus empregos enquanto sao maes. Apresentamos acoes para facilitar o envolvimento das maes e promover suas realizacoes como pesquisadoras. Este editorial tambem serve como uma introducao ao trabalho de Leventon, Roelich e Middlemiss (2019), “An academic mother’s wish list: 12 things universities need” publicada na Nature1 e traduzida neste volume com a concordância dos autores e da revista (Anexo A). Um dos principais desafios relatados pelas maes academicas e a pressao para continuar publicando durante a licenca maternidade. Ao se candidatar a uma progressao de carreira docente, subsidios ou financiamentos de pesquisas, o periodo de licenca maternidade nao e considerado, deixando as maes academicas em grande desvantagem em seus planos de carreira. Isso se evidencia quando temos que atingir as metricas definidas por agencias reguladoras de pos-graduacao (por exemplo, CAPES - Coordenacao de Aperfeicoamento de Pessoal de Nivel Superior). Muitas de nos, vivenciamos essa pressao: “porque, ao se fazer pesquisa, a interrupcao na carreira nao e apenas a epoca da licenca-maternidade (120 a 180 dias no Brasil, 12 semanas nos EUA)” e “o meu maior produto do ano passado foi minha filha”; porque “ser mae e um trabalho em tempo integral”. Conforme discutido por Ward (2014), os estereotipos de genero nos ambientes domestico e de trabalho dificultam o desempenho das mulheres pesquisadoras. A participacao exigida no ensino, atividades administrativas, pesquisa, e a falta de flexibilidade ou a ausencia de carga de trabalho reduzida podem dificultar a progressao funcional da mae academica ou dificultar o ingresso na profissao. Por exemplo, uma de nos relatou: “Quando voltei ao trabalho, senti que meu novo papel ocupacional - ser mae - foi completamente ignorado. Eu tinha a mesma carga horaria em sala de aula e era esperado que eu retomasse todas as atividades que eu costumava realizar desde o meu primeiro dia”. Mesmo em ambientes onde a maioria dos profissionais sao mulheres, como nas Ciencias da Saude ou Ciencias da Reabilitacao, os departamentos geralmente nao estao preparados para incluir as maes no trabalho, como observou uma de nos: “Nao ha vestiarios, espaco para ordenhar ou amamentar e, as vezes, quando precisei trazer o bebe para o trabalho, alguns colegas discordaram da situacao”. Foi um consenso entre nos que “seria essencial termos uma creche na universidade” e que isso tambem ajudaria toda a comunidade universitaria. Alem disto, alem de nao termos um local adequado ainda contamos com a falta de empatia de alguns colegas. A falta de discussao sobre ser mae e pesquisadora pode levar alguns colegas a nao compreender o real impacto que essa significativa pausa na carreira pode acarretar, conforme observado por uma de nos: “Quando voltei (da licenca maternidade), eles me perguntaram se eu tinha descansado muito”. E importante entender que a forma como cada pessoa vivencia a maternidade/paternidade pode ser diferente, especialmente quando falamos de papel de pai ou de mae, para evitar situacoes como a vivenciada por uma de nos: “afirmou que o periodo de licenca maternidade nao era desculpa para nao publicar, pois o nascimento das filhas foi o periodo mais produtivo dele”. Para aproximar esses dois mundos e permitir uma coexistencia mais harmoniosa de ser mae pesquisadora, nos incentivamos pais, parceiros/familias e aliados a compartilhar historias boas e desafiadoras sobre serem pais, a levar criancas a conferencias e procurar advogar por subsidios para que nossos filhos tambem sejam acolhidos nesses locais. E que assim possamos encontrar nossa “vila” (grupo de apoio), incluindo a participacao nos grupos on-line “Parents in Science” ou “Academic Mamas”. Como profissionais, tambem precisamos advogar por uma licenca parental decente, ter empatia com colegas e estudantes que sao pais, e exigir espacos publicos para que nossas criancas sejam acolhidas, para que todos possamos ter o conhecimento e o apoio necessarios para sermos os pais que desejamos ser. Tatiana Barcelos Pontes Universidade de Brasilia – UnB, Brasilia, DF, Brasil. Aline Teixeira Alves Universidade de Brasilia – UnB, Brasilia, DF, Brasil. Leticia Correa Celeste Universidade de Brasilia – UnB, Brasilia, DF, Brasil. Lilian Dias Bernardo Instituto Federal de Educacao, Ciencia e Tecnologia do Rio de Janeiro – IFRJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Adriana Goncalves Queiroz Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, Belo Horizonte, MG, Brasil. Marina Poletto Universidade de Brasilia – UnB, Brasilia, DF, Brasil. Janet Njelesani Department of Occupational Therapy, New York University – NYU, New York, NY, U.S.